Experiência da Prisão de Stanford (Zimbardo, 1971)

Foi uma experiência única na história da psicologia experimental – o grupo de psicólogos comandado pelo Prof. Dr. Zimbardo desenhou um estudo em que recrutaram estudantes universitários sem histórico de uso/abuso de substâncias, sem problemas com a justiça, e que foram admitidos após aceitar os termos do estudo e passarem por baterias de testes psicológicos de personalidade visando descartar traços antissociais e agressivos em especial, e transtornos psiquiátricos no geral.

O estudo deveria durar duas semanas, e para isso a ala inferior do Depto. De Psicologia foi literalmente transformada em uma ala prisional – as portas foram substituídas por barras de ferro, com três salas transformadas em celas que comportavam três prisioneiros cada. Além disso existia uma solitária, onde o preso conseguia na melhor das hipóteses ficar de pé. A noção de tempo foi confundida também – os guardas alternavam-se em grupos de três, fazendo turnos de oito horas de serviço cada, os demais ficando de sobreaviso, mas os prisioneiros não tinham janelas com visão externa, a iluminação era artificial, sendo apagada no período noturno e não existiam relógios. Visando acelerar o processo de identificação com sua posição, eram obrigados a manter correntes pesadas presas ao tornozelo durante as 24h do dia, vestiam gorros cobrindo os cabelos, e uniformes onde constava seu número – e somente deviam ser chamados e se apresentar pelo respectivo número.

Após a seleção dividiram-se aleatoriamente os voluntários em dois grupos, sendo nove definidos como guardas prisionais e nove definidos como prisioneiros. Os prisioneiros foram buscados por policiais em suas residências, recebendo voz de prisão e sendo revistados, algemados e encaminhados a delegacia de polícia que colaborou com o estudo. Chegando nesta, seus direitos legais eram informados, eram fichados e encaminhados para uma cela individual onde aguardavam a transferência para a prisão algemados e vendados.

Os presos eram então encaminhados encapuzados e algemados até a prisão, sendo despidos, revistados e recebendo tratamento antiparasitário na chegada. Ficavam em celas adaptadas que dividiam com outros dois presos. Assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido onde aceitavam a possibilidade de sofrerem algum grau de assério moral, ter certa privação de suas liberdades individuais e receberem alimentação minimamente adequada somente – contudo, poderiam abandonar o estudo a qualquer momento.

Basicamente foi dada aos guardas orientação de manter a ordem usando com equilíbrio medidas coercitivas, sendo lembrados das possíveis consequências por seus atos. Deveriam fazer o “ritual de contagem” várias vezes ao dia, independente do horário, para duas finalidades: habituar os presos com suas novas identidades (seus números) e também possibilitando aos guardas exercerem sua autoridade e controle sobre os presos.

A primeira dessas contagens aconteceu as 2h30 da manhã da primeira noite da experiência, e a partir daí começaram uma série de confrontos e provocações entre os dois grupos.

 

 

A identificação com os papéis determinados (seja pelo grupo dos guardas, seja pelo de prisioneiros) não demorou mais que dois dias para se estabelecer. Já no 2º dia aconteceu uma primeira rebelião, onde os presos fizeram barricadas com suas camas impedindo a abertura das grades, retiraram seus gorros e números de identificação e passaram a agredir verbalmente os guardas.

Os guardas que estavam assumindo o plantão demonstraram certa irritação com o que viam como falha dos que seriam rendidos, e com o apoio dos dois grupos (o que deixaria o serviço e o que estava de sobreaviso) usaram extintores de incêndio para afastar os presos das grades, forçando sua saída.

 

 

Todos os presos foram despidos, intimidados e maltratados, e os líderes da rebelião foram colocados nas solitárias.

O relato do pesquisador principal do estudo (disponível em http://www.prisionexp.org/portugues/) é muito interessante, pois o mesmo refere já no início da experiência ter se identificado com a figura de Diretor Prisional de fato. De acordo com ele, um dos guardas, ao perceber que deveriam conseguir manter a ordem com a equipe padrão de plantonistas somente (já que não poderiam manter um guarda por preso ininterruptamente), decidiu usar “táticas psicológicas em vez de físicas”.

Uma das celas foi designada para os três presos com menor envolvimento na rebelião, onde estes receberiam privilégios como a possibilidade de se vestirem novamente, se banharem e escovarem os dentes, além de comida especial – isso ao lado de presos que tinham perdido o direito de se alimentarem, visando basicamente quebrar a solidariedade e a união entre o grupo dos presos.

De forma perversa, após determinado período os presos eram trocados de cela aleatoriamente – gerando grande desconfiança entre os presos, que passavam a desconfiar daqueles que subitamente recebiam privilégios.

De forma inversa, a sensação de unidade entre os guardas aumentou, e eles passaram a desempenhar suas funções com mais seriedade, já que qualquer negligência em suas funções poderia facilitar alguma reação por parte dos presos. O grau de sadismo com que determinadas ações eram tomadas por parte dos guardas aumentou subitamente – os banhos passaram a ser concedidos como privilégio, e as necessidades fisiológicas deviam ser feitas em baldes, que demoravam a ser substituídos. Rapidamente o odor de urina e fezes dominava as celas.

Segundo Zimbardo, a maior parte dos presos acreditava que os guardas haviam sido escolhidos por seu porte físico avantajado, porém na realidade não existia diferença entre os grupos – a percepção física da figura de autoridade foi também alterada!

Menos de 36 horas após o início do estudo o preso 8612 passou a apresentar comportamento e fala desorganizados, com alternância entre crises de raiva e choro incontroláveis. Zimbardo relata que os próprios pesquisadores, neste momento identificando-se plenamente como diretores de uma instituição prisional, desconfiaram que o preso estivesse simulando a alteração psíquica com fins de conseguir libertar-se! O consultor prisional do estudo entrevistou o preso, provocando-lhe por ser tão fraco, e oferecendo ao mesmo a chance de se tornar informante em troca de facilitações e do fim do assédio que vinha sofrendo – foi-lhe dito para pensar sobre o assunto, porém na próxima contagem o mesmo descontrolou-se gritando aos outros que não poderiam sair nem desistir, levando ainda algum tempo para ser liberado pelos pesquisadores.

No dia seguinte estava programada uma visita ao presídio – os pesquisadores temiam que os familiares retirassem os presos quando vissem quão realista a experiência se tornara. Permitiram que tomassem banho e fizessem as barbas, as celas sendo limpas, e um ambiente preparado para recebe-los antes da visita propriamente. Contudo, regras rígidas com relação a duração da visita e do número de visitantes, além da presença de um guarda acompanhando cada visita foram impostas – e com a aceitação das regras por partes dos visitantes reforçou-se a representação dos papéis sociais determinados.

Zimbardo conta por exemplo de uma mãe que, após a visita, solicitou ao diretor que conseguisse melhor tratamento para seu filho!

Um dos guardas disse ter ouvido que o preso libertado na véspera viria com amigos invadir a prisão e libertar os demais logo após a visita – o pânico entre guardas e pesquisadores foi instalado, chegando ao ponto de solicitarem a transferência do experimento a uma ala de um presídio local (e a recusa por parte da autoridade local causou indignação ao Dr. Zimbardo, que em seu relato diz neste momento estar tão envolvido com seu papel que sentia que ficou “zangado e contrariado com a falta de cooperação entre nossos estabelecimentos prisionais”!). Transferiram os presos encapuzados para outro setor da Universidade, para somente depois perceberem que não passava de um boato. Após esse “incidente” os guardas reforçaram de forma visível os maus-tratos aos prisioneiros.

Zimbardo convidou então um padre católico, que havia sido capelão numa prisão, para avaliar os presos e fazer uma avaliação do realismo do estudo. De forma surpreendente verificou que o mesmo também desempenhou um papel dentro da “prisão”, oferecendo aos presos fazer contato com suas famílias para orientar com relação a busca por advogados como única forma de sair da prisão – o que realmente fez após sair da Universidade!

Somente o preso 819 recusou-se a falar com o padre, dizendo estar doente e exigindo a presença de um médico. Chamado para conversar com Zimbardo fora da prisão, um dos guardas deu ordem aos demais presos para gritarem juntos “o preso 819 fez uma coisa ruim” repetidamente. O rapaz começou a chorar ao escutar os demais, dizendo que precisava voltar para provar que não era ruim, mesmo sentindo-se doente – neste momento Zimbardo parece despertar do transe que se permitira entrar, dizendo ao “preso” que ele poderia ir, que tratava-se somente de uma experiência, ao que o rapaz parou de chorar subitamente e concordou.

Na sequência levaram-se todos os presos para avaliação por um “Comitê de Liberdade Condicional”, onde pessoas estranhas a eles até então (funcionários e estudantes de Stanford) lhes perguntavam se abriam mão do dinheiro que ganhariam como voluntários para conseguir a liberdade, ao que todos respondiam que sim, mas mesmo assim retornaram a suas celas durante as “deliberações do Comitê”, ao invés de simplesmente desistirem do estudo!

No quinto dia da experiência Zimbardo relata que era possível distinguir três grupos de guardas – aqueles “duros mas justos que seguiam as regras da prisão”, aqueles que faziam pequenos favores ao presos e nunca os puniam e por fim um terço dos guardas se mostravam autoritários e hostis, demonstrando abertamente prazer sádico em exercer sua “autoridade”. Destaca que os testes de personalidade não puderam predizer esse comportamento – somente entre os presos, naqueles onde se verificou maior grau de “autoritarismo” foram justamente os que toleraram melhor o ambiente prisional experimental. Verificou-se ainda que mesmo os guardas “bons” sentiam-se impotentes para interferir na conduta dos guardas “maus”.

Na quinta noite do estudo Zimbardo foi contactado pelos pais de um dos presos, que contaram ter recebido a ligação de um padre orientando-os a procurar um advogado para libertar seu filho.

Esse fato, associado ao agravamento das agressões por parte dos guardas e a indignação de uma pesquisadora de Stanford convidada para observar a experiência (Christina Maslach) levou Zimbardo a concluir prematuramente a experiência no 6º dia.

No dia seguinte uma série de encontros foi promovida entre os presos, guardas e pesquisadores, visando entrevistar e confrontar as partes com os eventos ocorridos. Os relatos dão a impressão de um verdadeiro transe hipnótico coletivo, com a representação de papéis sociais artificialmente determinados sendo realizada com identificação intensa e prejuízo da identidade própria de cada participante.

 

 

Os desdobramentos desse fascinante experimento vão além dos debates sobre o sistema prisional em si. A representação de papéis sociais impostos e a facilidade com que indivíduos “normais” identificam-se com estes traz um alerta para organizadores de qualquer tipo de instituição ou empresa.

Costumo apresentar esse trabalho para as equipes de trabalho de instituições de tratamento psiquiátrico em regime fechado (de internação), tanto de psiquiatria geral quanto serviços especializados no tratamento de dependência química – minha área de atuação, e campo fértil para o desenvolvimento do mesmo padrão observado no estudo. São dois grupos sempre: de um lado estarão aqueles que não podem desistir do tratamento, e do outro lado aqueles que não podem permitir que o primeiro grupo abandone o tratamento ou subverta a ordem!

 

Publicado de forma adaptada no blog internacaoinvoluntaria.wordpress.com e no site Sobre a Dependência Química Feminina.

 

Publicado por

Dr. Gustavo Amadera

Médico Psiquiatra formado pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (CREMESP no. 117.682, RQE no. 26302), membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP – matrícula no. 8465), da American Academy of Psychiatry and the Law (AAPL – id no. 108247), da Society for Neuroscience (SFN – no. 210488011) e da Associação Paulista de Medicina (APM – Inscrição no. 80007838). Ex-Conselheiro do Conselho Municipal de Políticas sobre Álcool e outras Drogas (COMAD-Atibaia). Perito Psiquiatra credenciado pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP), Tribunal Regional Federal (TRF3/JFSP), Tribunal Regional do Trabalho (TRT-SP e TRT-15) e pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo (DRS-VII Campinas).