Novo Paradigma – Prévia dos Novos Critérios Diagnósticos para Dependência Química no DSM-V

Os novos critérios diagnósticos propostos pelo grupo de especialistas que prepara a 5ª Edição do Manual Estatístico e Diagnóstico (DSM-V) da Associação de Psiquiatria Americana – APA (veja aqui) representam uma verdadeira mudança de paradigma no entendimento da problemática com álcool e drogas.
 

O próprio título da categoria diagnóstica possivelmente será alterado – Adicção e Transtornos Relacionados, aumentando sua abrangência, e possibilitando talvez a intervenção em estágios mais precoces da doença, já que acabaria a dicotomia entre Dependência Química e Uso Abusivo de Substâncias.

Outra proposta seria a inclusão da fissura (ou craving) como um critério diagnóstico – anteriormente tal sintoma só estava presente na Classificação Internacional de Doenças (CID-10) da Organização Mundial de Saúde (OMS).

 

Será incluído dentro da categoria o diagnóstico do Jogo Patológico, por exemplo, anteriormente incluído no grupo dos Transtornos Relacionados ao Controle do Impulso). Se em termos psicobiológicos não existe dúvida do acometimento da mesma via mesolímbica dopamigérgica (Circuito de Recompensa ou Via do Prazer), o mecanismo comportamental do Jogo Patológico é baseado no condicionamento por reforços intermitentes – ao passo que drogas de abuso ou sexo trazem a satisfação imediata, intensa e fugaz, o jogador somente vivencia o prazer da vitória em raríssimos momentos – a expectativa de conseguir o reforço positivo seria suficiente (em indivíduos predispostos geneticamente, ao menos) para desenvolver toda uma gama de comportamentos disfuncionais.

 

Por fim, será incluida uma sub-categoria para Síndrome de Abstinência à Cannabis/Maconha – evidências científicas em modelos animais e a experiência clínica dos especialistas serão finalmente codificadas no Manual Estatístico Diagnóstico da Associação de Psiquiatria Americana, alterando de forma importante o entendimemto sobre essa substância psicotrópica e seus efeitos a médio e longo prazo (apesar da volumosa bagagem de estudos publicados, ainda persistia a crença da ausência de um quadro físico de abstinência da cannabis, o que abria margem para leigsos e mesmo profissionais da saúde questionarem se a droga causaria de fato dependência fisiológica).

 

A seguir uma tradução livre:

Transtornos Relacionados ao Uso de Substâncias (DSM-V)

Padrão maladaptativo de uso de substância levando a prejuízo ou sofrimento significativo, manifestado por 2 (ou mais) dos seguintes critérios, ocorrendo dentro de um período de 12 meses:

1. Uso recorrente de substância resultando em falha no cumprimento de obrigações no trabalho, escola ou em casa (p.ex. faltas repetidas ou baixo desempenho no trabalho relacionados ao uso de substância, faltas, suspensões ou expulsões da escola devido ao uso de substância, negligência nos cuidados do lar ou dos filhos)

2. Uso recorrente em situações em que isso pode ser fisicamente perigoso (p.ex. dirigir um automóvel ou operar maquinário enquanto intoxicado pela substância)

3. Uso continuado da substância apesar de problemas recorrentes e persistentes nas esferas social ou interpessoal causados ou exacerbados pelos efeitos da substância (p.ex. discussões com marido/esposa sobre as consequências da intoxicação, brigas físicas)

4. Tolerância, definida por qualquer um dos seguintes aspectos:
(a) uma necessidade de quantidades progressivamente maiores da substância para adquirir a intoxicação ou efeito desejado
(b) acentuada redução do efeito com o uso continuado da mesma quantidade de substância
(Nota: Tolerância não é considerada para aqueles usando medicações sob supervisão e prescrição médica, como analgésicos, antidepressivos, ansiolíticos ou beta-bloqueadores)

5. Abstinência, manifestada por qualquer dos seguintes aspectos:
(a) síndrome de abstinência característica para a substância (consultar os Critérios A e B dos conjuntos de critérios para Abstinência das substâncias específicas)
(b) a mesma substância (ou uma substância estreitamente relacionada) é consumida para aliviar ou evitar sintomas de abstinência
(Nota: Tolerância não é considerada para aqueles usando medicações sob supervisão e prescrição médica, como analgésicos, antidepressivos, ansiolíticos ou beta-bloqueadores)

6. a substância é freqüentemente consumida em maiores quantidades ou por um período mais longo do que o pretendido

7. existe um desejo persistente ou esforços mal-sucedidos no sentido de reduzir ou controlar o uso da substância

8. muito tempo é gasto em atividades necessárias para a obtenção da substância (por ex., consultas a múltiplos médicos ou fazer longas viagens de automóvel), na utilização da substância (por ex., fumar em grupo) ou na recuperação de seus efeitos

9. importantes atividades sociais, ocupacionais ou recreativas são abandonadas ou reduzidas em virtude do uso da substância

10. o uso da substância continua, apesar da consciência de ter um problema físico ou psicológico persistente ou recorrente que tende a ser causado ou exacerbado pela substância (por ex., uso atual de cocaína, embora o indivíduo reconheça que sua depressão é induzida por ela, ou consumo continuado de bebidas alcoólicas, embora o indivíduo reconheça que uma úlcera piorou pelo consumo do álcool).

11. Fissura ou Craving – um forte desejo ou urgência de usar uma substância específica

Especificadores de Gravidade:
Moderado: 2-3 criterios positivos; Grave: 4 ou mais critérios positives
Especificar se: Com (ou Sem) Dependência Fisiológica: evidência de tolerância ou abstinência

 

Tema exposto pelo autor em Mesa Redonda no Congresso Latino-Americano de Análise e Modificação do Comportamento (CLAMOC) de 2010

Publicado de forma adaptada no blog internacaoinvoluntaria.wordpress.com e da Clínica Feminina Vitoriosos