Dr. Drauzio Varella entrevista o Dr. Ronaldo Laranjeira sobre Dependência Química

texto extraído do site do Dr. Drauzio Varella (leia o original na íntegra)

 

As drogas acionam o sistema de recompensa do cérebro, uma área encarregada de receber estímulos de prazer e transmitir essa sensação para o corpo todo. Isso vale para todos os tipos de prazer – temperatura agradável, emoção gratificante, alimentação, sexo – e desempenha função importante para a preservação da espécie.

Evolutivamente o homem criou essa área de recompensa e é nela que as drogas interferem. Por uma espécie de curto circuito, elas provocam uma ilusão química de prazer que induz a pessoa a repetir seu uso compulsivamente. Com a repetição do consumo, perdem o significado todas as fontes naturais de prazer e só interessa aquele imediato propiciado pela droga, mesmo que isso comprometa e ameace a vida do usuário.

 

MECANISMO GERAL DA DEPENDÊNCIA

Drauzio – Que mecanismo do corpo humano explica o processo de dependência da droga?

Ronaldo Laranjeira – Acho importante destacar que existe, no cérebro, uma área responsável pelo prazer. O prazer, que sentimos ao comer, fazer sexo ou ao expor o corpo ao calor do sol, é integrado numa área cerebral chamada sistema de recompensa. Esse sistema foi relevante para a sobrevivência da espécie. Quando os animais sentiam prazer na atividade sexual, a tendência era repeti-la. Estar abrigado do frio não só dava prazer, mas também protegia a espécie. Desse modo, evolutivamente, criamos essa área de recompensa e é nela que a ação química de diversas drogas interfere. Apesar de cada uma possuir mecanismo de ação e efeitos diferentes, a proposta final é a mesma, não importa se tenha vindo do cigarro, álcool, maconha, cocaína ou heroína. Por isso, só produzem dependência as drogas que de algum modo atuam nessa área. O LSD, por exemplo, embora tenha uma ação perturbadora no sistema nervoso central e altere a forma como a pessoa vê, ouve e sente, não dá prazer e, portanto, não cria dependência.

Vários são os motivos que levam à dependência química, mas o final é sempre o mesmo. De alguma maneira, as drogas pervertem o sistema de recompensa. A pessoa passa a dar-lhes preferência quase absoluta, mesmo que isso atrapalhe todo o resto em sua vida. Para quem está de fora fica difícil entender por que o usuário de cocaína ou de crack, com a saúde deteriorada, não abandona a droga. Tal comportamento reflete uma disfunção do cérebro. A atenção do dependente se volta para o prazer imediato propiciado pelo uso da droga, fazendo com que percam significado todas as outras fontes de prazer.

 

Drauzio – Você diz que a evolução criou, no cérebro, um centro de recompensa ligado diretamente à sobrevivência da espécie. As abelhas, quando pousam numa flor e encontram néctar, liberam um mediador chamado octopamina, neurotransmissor presente nas sensações de prazer. Esses mecanismos são bastante arcaicos? 

Ronaldo Laranjeira  – O sistema de prazer é muito primitivo. É importante para as abelhas e para os seres humanos também. A droga produz efeito tão intenso porque age nesses mecanismos biológicos bastante primitivos.

 

Drauzio  Mecanismos tão arcaicos assim representam uma armadilha poderosa. Na verdade, provoca-se um estímulo forte que está mexendo com milhares de anos de evolução.

Ronaldo Laranjeira – Acho que estamos cada vez mais valorizando esse tipo de mecanismo. A droga é um fenômeno psicossocial amplo, mas que acaba interferindo nesse mecanismo biológico primitivo.

 

DEPENDÊNCIA É UM PROCESSO DE APRENDIZADO

Drauzio – A maioria das pessoas bebe com moderação, mas algumas fazem uso abusivo do álcool. Há quem fume maconha ou use cocaína esporadicamente, mas existem os que fumam crack o dia inteiro. O que explica essa diferença? A resposta está na droga ou no usuário?

Ronaldo Laranjeira  – Parte da resposta está na tendência ao uso crônico e na história de cada pessoa. Quando começou a usar? Como interpreta os sintomas da síndrome de abstinência? Além disso, o que vai fazer com que repita a experiência não é só a busca do prazer, mas a tentativa de evitar o desprazer que a ausência da droga produz.

A dependência é um processo de aprendizado. O fumante, por exemplo, pela manhã já manifesta sintomas da abstinência. Fica irritado e sua capacidade de concentração baixa. Ele fuma, o desconforto diminui. Vinte minutos depois, o nível de nicotina no cérebro cai, voltam os sintomas da abstinência e ele vai aprendendo a usar a droga pelo efeito agradável que proporciona e para evitar o desprazer que sua falta produz.

A dependência é fruto, então, do mecanismo psicológico que a um só tempo induz o indivíduo a buscar o prazer e evitar o desprazer, e fruto das alterações cerebrais que a droga provoca. Essa interação entre aspectos psicológicos e efeito farmacológico vai determinar o perfil dos sintomas de abstinência de cada pessoa. A compulsão é menor naquelas que toleram a abstinência um pouco mais, e maior nas que a inquietação é intensa diante do menor sinal da síndrome de abstinência.

Resumindo: a dependência química pressupõe o mecanismo psicológico de buscar a droga e a necessidade biológica que se criou no organismo. Disso resulta a diversidade de comportamentos dos usuários.
A maconha é um bom exemplo. Seu uso compulsivo hoje é maior do que era há 20, 30 anos e, de acordo com as evidências, quanto mais cedo o indivíduo começa a usá-la, maior é a possibilidade de tornar-se dependente. Como garotos de 12, 13 anos e, às vezes, até mais novos, estão usando maconha, atualmente o problema se agrava. Além disso, as concentrações de THC (princípio ativo da maconha) aumentaram muito nos últimos tempos. Na década de 1960, andavam por volta de 0,5% e agora alcançam 5%. Portanto, a maconha de hoje é 10 vezes mais potente do que era naquela época.

Diante disso, a Escola Paulista de Medicina sentiu a necessidade de montar um ambulatório só para atender os usuários de maconha e há uma lista de espera composta por adolescentes e jovens adultos desmotivados, que fumam seis, sete baseados por dia e não conseguem fazer outra coisa na vida. Isso não acontecia quando a concentração de THC era mais fraca e o acesso à droga mais restrito.

 

Drauzio – Quando se conversa com usuários de maconha de muitos anos, eles lastimam que a droga tenha perdido a qualidade. Sua explicação prova exatamente o contrário. Terão essas pessoas desenvolvido um grau de tolerância maior à droga?

Ronaldo Laranjeira  – Acho que a queixa é fruto de um certo saudosismo, uma vez que há tipos de maconha, entre eles o skank, que chegam a ter 20% de THC. Na Holanda, foram desenvolvidas cepas que contêm maior concentração desse princípio ativo, o que faz com que a maconha perca a classificação de droga leve e se transforme numa substância poderosa para causar dependência. Deve-se considerar, ainda, como justificativa da queixa que o uso crônico causa sempre certa tolerância.

 

Drauzio – No Carandiru, minha experiência mostra que há quem fume um baseado a cada 30 minutos. Uma droga que exija tal frequência de consumo não pode ser considerada leve, não é verdade? 

Ronaldo Laranjeira  – Infelizmente não existem drogas leves, se produzirem estímulo no sistema de recompensa cerebral. Em geral, as pessoas perguntam: mas se a droga dá prazer, qual é o problema? O problema é que ela não mexe apenas na área do prazer. Mexe também em outras áreas e o cérebro fica alterado. Diante de uma fonte artificial de prazer, ele reage de modo impróprio. Se existe a possibilidade de prazer imediato, por que investir em outro que demande maior esforço e empenho? A droga perverte o repertório de busca de prazer e empobrece a pessoa. Comer, conversar, estabelecer relacionamentos afetivos, trabalhar são fontes de prazer que valorizamos, mas não são imediatas.

 

CARACTERÍSTICAS COMPORTAMENTAIS DOS USUÁRIOS

Drauzio – O uso crônico do álcool provoca uma série de alterações que todo mundo conhece e reconhece. Em relação às outras drogas, de acordo com sua experiência pessoal e não com as definições dos livros, quais as principais características do usuário?

Ronaldo Laranjeira  – No ambulatório da Escola Paulista de Medicina que atende usuários de maconha, pude notar que há dois grupos distintos. Um é constituído por jovens que perderam o interesse por tudo o que faziam. Não estudam nem trabalham. Estão completamente desmotivados. É o que chamamos de síndrome amotivacional. O nome é feio, mas pertinente. O outro grupo é formado por pessoas nas quais se estabelece uma relação complexa entre maconha e doenças mentais como psicose e depressão. Não se sabe se a maconha produz a doença mental. O que se sabe é que ela piora os sintomas de qualquer uma delas, seja ansiedade ou esquizofrenia.

AÇÃO E EFEITO DAS DIFERENTES DROGAS

Drauzio –Teoricamente, quando a pessoa ansiosa fuma maconha, fica mais relaxada. Você acha que isso é um mito?

Ronaldo Laranjeira  – É importante distinguir, na droga, o efeito imediato do efeito cumulativo. No geral, sob a ação da maconha, a pessoa ansiosa relaxa um pouco, mas esse é um efeito de curto prazo. O álcool também relaxa num primeiro momento. No entanto, as evidências demonstram que nas pessoas ansiosas seu uso crônico aumenta os níveis de ansiedade, porque o cérebro reage tentando manter o sistema em equilíbrio. É o efeito de homeóstase. Se alguém usa um estimulante, passado o efeito, o cérebro não volta ao funcionamento normal imediatamente. Surge o efeito rebote. Isso ocorre com qualquer droga. Tanto com a maconha quanto com o álcool, findo o efeito depressor, o efeito rebote elevará os níveis de ansiedade.

 

Drauzio – Como age a maconha na memória?

Ronaldo Laranjeira  – A maconha diminui a concentração, a memória e a atenção. É um efeito bastante rápido. Estudos mostram que, se alguém usar maconha num dia e medir os níveis de memória e concentração no outro, eles estarão ligeiramente alterados. Isso tem um impacto bastante negativo na vida dos adolescentes.

Na verdade, não há droga que melhore o desempenho intelectual. Nós sabemos que pessoas criativas usam drogas e produzem coisas criativas. Se elas não fossem criativas por natureza, não haveria droga no mundo capaz de produzir esse resultado.

 

Drauzio – Quais são os efeitos crônicos da cocaína?

Ronaldo Laranjeira – Em relação à saúde, o efeito mais grave da cocaína são os problemas cardíacos e cardiovasculares. Quando associada ao álcool, então, ela é uma das principais causas de infarto do miocárdio em adultos jovens.

 

 

ASSOCIAÇÃO PERIGOSA DA COCAÍNA COM O ÁLCOOL

Drauzio – Por que o usuário de cocaína bebe tanto?

Ronaldo Laranjeira  – De alguma forma, o álcool faz com que a pessoa se sinta mais liberada e use cocaína, um estimulante potente. Para diminuir a excitação, ela torna a beber e, como num círculo vicioso, a usar cocaína. A confusão cerebral aumenta consideravelmente e a tendência é beber ou cheirar mais. Trata-se de uma reação perturbadora em que o álcool incentiva o consumo de cocaína e vice-versa.

Drauzio – Fico assustado com a quantidade de bebida destilada que o usuário de cocaína consome.

Ronaldo Laranjeira  – A cocaína aumenta a resistência ao álcool, porque um pouco de seu efeito depressor é atenuado pela cocaína. Por outro lado, a pessoa tolera quantidades maiores de álcool, porque precisa abrandar os efeitos altamente excitantes da cocaína.
Sempre é válido repetir que álcool e cocaína representam uma das associações de drogas mais perigosas que existem. Ao que parece, tal associação dá origem a uma terceira molécula extremamente tóxica para cérebro e para o músculo cardíaco.

Drauzio – No Carandiru, vi meninos de 20 e poucos anos com infarto do miocárdio ou derrame cerebral puxando o braço ou a perna depois de uma seção de crack ou de uma overdose de cocaína. Isso acontece frequentemente?

Ronaldo Laranjeira  – Infelizmente, no Brasil, não há dados precisos sobre o que aconteceu com os usuários de cocaína, porque o sistema médico não é muito coordenado. Se eles existissem, ficaríamos horrorizados.

Tivemos uma pequena experiência acompanhando, por cinco anos, o primeiro grupo de usuários de crack que foi internado em Cidade de Taipas, interior de São Paulo. Era uma população de classe média baixa. No final desse período, 30% tinham morrido em acidentes ou por morte violenta. Nesse caso, as famílias não sabiam dizer quem eram os responsáveis pelas mortes: os traficantes ou a polícia.

Não sabemos se isso ocorre com todos os usuários de crack. Temos certeza, porém, de que poucas doenças apresentam esse índice de mortalidade.

 

 

SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA / EFEITO REBOQUE

Drauzio – Como se manifesta o efeito rebote?

Ronaldo Laranjeira – O mecanismo de recompensa cerebral é importante para a preservação da espécie e ninguém é contra o prazer. Ao contrário, deveríamos estimular o surgimento de inúmeras fontes de prazer. A dependência química, entretanto, cria uma ilusão de prazer que acaba perturbando outros mecanismos cerebrais. Se, fumando um baseado, a pessoa relaxa, findo o efeito, a ansiedade ganha força, pois a síndrome de abstinência é imediata. É o chamado efeito rebote.

A cocaína age de forma diferente. O efeito rebote está na impossibilidade de sentir prazer sem a droga. Passada a excitação que ela provoca, a pessoa não volta ao normal. Fica deprimida, desanimada. Tudo perde a graça. Como só sente prazer sob a ação da droga, torna-se um usuário crônico. Às vezes, tenta suspender o uso e reassumir as atividades normais, mas nada lhe dá prazer. Parece que, por vingança divina, o cérebro perdeu a capacidade de experimentar outras fontes que não a desse prazer artificial que a droga proporciona.

Essa é uma das tragédias a que se expõem os dependentes químicos. No processo de reabilitação, quando a pessoa para de usar droga, é fundamental ajudá-la a reencontrar fontes de prazer independentes da substância química.

 

Drauzio – Quem está de fora dificilmente entende o comportamento do dependente. “Esse cara, em vez de estar namorando, indo ao cinema, estudando, fica cheirando cocaína ou fumando crack”, é o que normalmente todos pensam. Isso dá a sensação de que o outro é fraco, com comportamento abjeto, digno de desprezo. Quem está passando por isso, vê a realidade de forma diferente?

Ronaldo Laranjeira  – Na verdade, essa pessoa está doente. Seu cérebro está doente, com a sensação de que não existe outro prazer além da droga. Isso acontece também com o cigarro, uma fonte preciosa de prazer para os fumantes que adiam a decisão de parar de fumar por medo de perdê-la. De fato, 30% dos fumantes, logo depois que se afastam da nicotina, apresentam sintomas expressivos de depressão e precisam ser medicados com antidepressivos.

 

 

BUSCA DO PRAZER TOTAL

Drauzio – Você acha que um dia aparecerá uma droga cujo mecanismo de ação se encarregue de nos deixar felizes sem provocar malefícios no cérebro?

Ronaldo Laranjeira  – Não acredito. Fica difícil imaginar uma droga que aja só no centro de prazer sem perturbar os demais mecanismos bioquímicos do cérebro, que é um órgão complexo e evolutivamente preparado para vivenciar muitas formas de prazeres sutis. Para tais estímulos, está aparelhado. Para os advindos das drogas, não.

Drauzio – Você não acha que o homem está sempre à procura do prazer total? 

Ronaldo Laranjeira – A busca do prazer é uma característica positiva do ser humano. No caso das drogas, porém, ao querer superar a própria biologia por um artifício grosseiro, ele acaba se empobrecendo. O desejo de intensificar o prazer ao máximo empurra o homem para uma guerra que jamais será vencida.

 

 

CAMPANHAS CONTRA AS DROGAS

Drauzio – Quando analisamos as campanhas contra as drogas, verificamos que se baseiam muito nos aspectos negativos dessas substâncias. A ideia é sempre assustar o usuário: “droga mata”. Aí, o garoto fuma um baseado e não morre. Ao contrário, sente-se bem e fica achando que tudo não passa de uma grande mentira. Você acha que o enfoque das campanhas é ingênuo?

Ronaldo Laranjeira – Estamos ainda muito no começo. Na criação de um modelo do que acontece com os usuários de droga, as campanhas estão numa fase bastante embrionária, mas acho que estão certas ao afirmar que drogas fazem mal. Ficar só nisso, porém, é passar uma informação de saúde ingênua e pobre. É preciso dizer como e por que as drogas são altamente prejudiciais ao organismo para que a pessoa tome uma decisão firme, bem alicerçada, e disponha-se a abandoná-las.

As evidências nos mostram que, quando se trabalha com a prevenção, a prioridade deve ser dada aos fatores de risco. Todavia, a partir do momento em que já está instalado o consumo (maconha, nos casos mais comuns), as estratégias teriam de ser bem diferentes.

 

ORIENTAÇÃO AOS PAIS

Drauzio – Muitas vezes os pais ficam apavorados quando encontram maconha nas coisas dos filhos. Como você orienta quem vive esse problema?

Ronaldo Laranjeira Na verdade, maconha é a primeira droga ilícita que a pessoa consome, mas antes disso, em geral, já experimentou o álcool e o cigarro. Já não se discute mais que, quanto mais cedo o adolescente entrar em contato com a droga, maior será a probabilidade de “escalar”, isto é, de partir para outras drogas ou intensificar o uso da maconha. É muito difícil prever quem vai ou não embarcar nesse processo. Sabe-se, porém, que quantos mais amigos envolvidos com drogas ele tiver, maior risco correrá do uso tornar-se crônico.

O primeiro passo para enfrentar a situação é os pais se informarem sobre o que está acontecendo na vida dos filhos e voltarem a exercer controle mais efetivo sobre suas atividades. Em geral, esse problema reflete uma certa crise familiar. Por razões diversas, pais e filhos se distanciaram. Por isso, a estratégia básica é levar ao conhecimento dos pais o que está acontecendo com seus filhos e os riscos que eles correm.

Quanto ao adolescente, é complicado conversar sobre esses riscos. A tendência do jovem que já se envolveu com maconha é minimizá-los ao máximo. “Que mal existe em fumar um baseado por semana?” é a pergunta que muitos fazem. Acontece que, na maioria das vezes, quem começou precocemente, no período de seis meses, estará fumando um baseado por dia.

Na entrevista clínica, não dá para antever o caminho que cada um percorrerá no mundo das drogas. Quem já teve o desprazer de acompanhar um adolescente numa entrevista, tranquilizar os pais, dizendo – “Olhem, ele só está usando uma vez por semana. Essa é uma experiência pela qual ele deve passar.” – e, depois de dois anos, ver esse jovem totalmente deteriorado, traficando drogas, fica muito preocupado com o momento certo em que deve interferir. Esse é o desespero dos pais e o dilema dos profissionais: agir na medida exata da necessidade de cada caso. Nem todos precisam de tratamento, mas não se pode deixar escapar aqueles para os quais o acompanhamento clínico é indispensável.

 

Drauzio – Em que você se baseia para julgar se um garoto, que afirma fumar maconha a cada dois meses , representa risco de tornar-se um usuário crônico? 

Ronaldo Laranjeira – É preciso estar atento a três fatores que combinados são sinais de alerta e requerem algum tipo de acompanhamento. O primeiro é atitude por demais tranquila do adolescente que considera a maconha inofensiva e destituída de inconveniências. Depois, é importante considerar a rede social em que está inserido. Os amigos com quem convive são usuários da droga? Por último, deve-se avaliar seu desempenho nas atividades cotidianas. É o caso do bom aluno até os 13 anos, que foi perdendo o interesse pela escola e não reage mesmo diante da ameaça de perder o ano.

 

PARANOIA ASSOCIADA AO CONSUMO DE DROGAS

Drauzio  A paranoia é um efeito terrível da cocaína. O indivíduo cheira e entra numa crise persecutória alucinante. O que leva alguém a usar uma droga sabendo que irá provocar uma sensação medonha e que nenhum prazer oferece?

Ronaldo Laranjeira – Essa é a essência da dependência química de uma droga. Primeiro aparece o efeito prazeroso e, depois, o desprazer. Com a cocaína, isso é mais intenso. Seu efeito de excitação e de prazer é imediato, ocorre em poucos segundos. Alguns minutos depois, desaparece e surgem os efeitos desagradáveis. Confrontando os dois, prevalece a lembrança dos bons momentos e a pessoa volta a usar a droga. Tive um paciente que injetava cocaína. Suas veias tinham sumido, mas mesmo assim ele não desistia. Expunha-se ao tormento de dezenas de picadas para obter um único resultado positivo que, em sua balança emocional, compensava o sofrimento anterior. Os fumantes têm comportamento parecido. Muitos, mesmo com traqueostomia, não deixam de fumar.

Drauzio – Conheci alguns que, apesar da insuficiência vascular cerebral, ficavam tontos e caíam no chão quando fumavam, mas não desistiam e logo depois acendiam um cigarro outra vez. 

Ronaldo Laranjeira – É a força da dependência, um fenômeno diversificado cuja essência é a disfunção cerebral provocada por várias drogas e que se manifesta em pessoas de personalidades diferentes.

Drauzio
 – A maconha também pode provocar paranoia? 

Ronaldo Laranjeira – É menos comum, mas casos de paranoia também ocorrem especialmente em pessoas que já apresentaram algum problema mental. Quem tem um surto psicótico e fuma maconha, por exemplo, faz um péssimo negócio, porque se intensificarão os sintomas dessa doença já estabelecidos anteriormente.

No que se refere à cocaína, nem todos que manifestam esses sintomas desenvolverão a síndrome paranoica. No entanto, quando isso acontece, as consequências são desastrosas. Soube de um usuário de cocaína que, em crise, saiu em disparada por uma estrada, foi atropelado e morreu. Há outros que pegam uma arma e disparam a esmo.

 

FORÇA PODEROSA DA DEPENDÊNCIA

Drauzio  Muitos usuários garantem que a maconha é uma droga fácil de largar, que não causa dependência. Isso é verdade?

Ronaldo Laranjeira – Cada droga tem um perfil de dependência, e a maconha não é muito diferente das demais. Como já foi dito, atualmente ela está dez vezes mais forte do que era há 30 anos. Por isso, não é tão fácil afastar-se dela, principalmente se a pessoa começou a fumar na adolescência, quando ainda era um ser em formação.

O acompanhamento de usuários de maconha, no ambulatório da Escola Paulista de Medicina, sugere exatamente o contrário. As pessoas conseguem suspender o uso da droga durante alguns dias, mas a vontade fica incontrolável e elas voltam a fumar os baseados.

 

Drauzio – No Carandiru, examino rapazes com tuberculose que fumam cigarros de nicotina, de maconha e crack. Explico-lhes que eles não podem fumar de jeito nenhum porque seus pulmões estão doentes, muito inflamados. Na semana seguinte, eles me informam que conseguiram suspender o crack e a maconha, mas o cigarro está difícil. Isso se repete nas semanas subsequentes. Tive centenas de casos como esse, que me convenceram de que o cigarro é mais difícil de largar do que as outras drogas. Estou exagerando? 

Ronaldo Laranjeira – Embora o efeito da nicotina não seja tão poderoso quanto o da maconha, é muito mais constante. Imaginemos que o fumante dê dez tragadas em cada cigarro e fume vinte cigarros por dia. Feitas as contas, num único dia seu cérebro recebeu um reforço positivo pelo menos duzentas vezes. Cada tragada é igual a uma injeção de nicotina na veia. Esse estímulo, repetido através dos anos, faz com que a dependência de nicotina seja mais poderosa do que as outras. A maconha, no momento, passa por processo semelhante. Mais disponível e mais barata, seu consumo aumentou e, consequentemente, o número de cigarros fumados por dia e os estímulos cerebrais que provocam aumentaram também. Portanto, em termos de dependência, as duas drogas não diferem muito. Pelo atual padrão de consumo, mais fácil, acessível e intenso, maconha e nicotina têm muito em comum. Por isso, não compartilho a ideia de que maconha seja uma droga leve.

Drauzio – O usuário de cocaína diz que deixará de usar a droga quando quiser. No entanto, admite que não poderá vê-la, porque entrará em desespero e a vontade de consumi-la ficará incontrolável. Como se pode explicar esse fenômeno? 

Ronaldo Laranjeira  – Ficar longe da droga, quando se está disposto a abandoná-la, faz parte do processo de aprendizado. No exato instante em que a pessoa vê a cocaína, seu cérebro começa a preparar-se para recebê-la e dispara um mecanismo que chamamos de craving ou fissura. Isso vale para qualquer droga. Depois que ficou dependente, é quase impossível alguém ver a droga e resistir ao desejo de usá-la. Por isso, na fase inicial do tratamento, aconselha-se que o usuário se afaste completamente de todos esses estímulos, pois ficará menos difícil lidar com o fenômeno da dependência química.

 

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Algumas envidências científicas sobre a psicobiologia da dependência química em mulheres

Apesar da menor prevalência de abuso e dependência de substâncias entre as mulheres, estas parecem ser mais vulneráveis ao desenvolvimento de dependência provavelmente devido às ações dos hormônios ovarianos (Lynch 2006).

O estrógeno, por exemplo, parece possuir um efeito estimulatório sobre a dopamina-beta-hidroxilase (Serova 2001), a enzima responsável pela metabolização da dopamina.

A progesterona já demonstrou possuir algum efeito positivo sobre o craving, inclusive em pacientes do sexo masculino (Sofuoglu 2004).

Foram encontradas diferenças significativas em termos de perfusão cerebral, com as mulheres mostrando alterações relacionadas à pior resposta ao tratamento (Tucker 2004).

Pacientes do sexo feminino preenchem critérios para dependência mais rapidamente e procuram tratamento mais precocemente que os homens (Anglin 1987, Brecht 2004, Griffin 1989, Hernandez-Avila 2004, Westermeyer 2000) sugerindo uma evolução para dependência mais acelerada (Brady 1999).

Além disso, as mulheres parecem mais propensas a apresentar craving após serem expostas a testes provocativos (Robbins 1999, Tucker 2004) e a apresentarem recaídas devido ao estresse e depressão (Rubin 1996).

 

Referências Bibliográficas

Anglin, M. D., Hser, Y. I., & McGlothlin, W. H.. Sex differences in addict careers: 2. Becoming addicted. American Journal of Drug and Alcohol Abuse 13, 59–71, 1987.

Brady, K. T., & Randall, C. L. Gender differences in substance use disorders. Psychiatric Clinics of North America 22, 241–252, 1999.

Brecht, M. L., O’Brien, A., von Mayrhauser, C., & Anglin, M. D. Methamphetamine use behaviors and gender differences. Addictive Behaviors 29, 89–106, 2004.

Griffin, M. L., Weiss, R. D., Mirin, S. M., & Lange, U. A comparison of male and female cocaine abusers. Archives of General Psychiatry 46, 122–126, 1989.

Hernandez-Avila, C. A., Rounsaville, B. J., & Kranzler, H. R.. Opioid-, cannabis- and alcohol-dependent women show more rapid progression to substance abuse treatment. Drug and Alcohol Dependence 74, 265–272, 2004.

Lynch W. Sex Differences in Vulnerability to Drug Self-Administration. Experimental and Clinical Psychopharmacology 14(1), February 2006, p 34–41

Robbins, S. J., Ehrman, R. N., Childress, A. R., & O’Brien, C. P. Comparing levels of cocaine cue reactivity in male and female outpatients. Drug and Alcohol Dependence 53, 223–230, 1999. Rubin,

A., Stout, R. L., & Longabaugh, R. Gender differences in relapse situations. Addiction 91(Suppl.), S111–S120, 1996.

Serova L, Rivkin M, Nakashima A, Sabban EL. Oestradiol stimulates gene expression of norepinephrine enzymes in rat locus coeruleus. Neuroendocrinology 75:193–200, 2002.

Sofuoglu M, Mitchell E, Kosten TR. Effects of progesterone treatment on cocaine responses in male and female cocaine users. Pharmacol Biochem Behav 78 (4): 699-705, Aug 2004.

Tucker KA, Browndyke JN, Gottschalk CP, Cofrancesco AT, Kosten TR. Gender-specific vulnerability for rCBF abnormalities among cocaine abusers. Neuroreport 9;15(5):797-801, Apr 2004.

Westermeyer, J., & Boedicker, A. E. Course, severity, and treatment of substance abuse among women versus men. American Journal of Drug and Alcohol Abuse 26, 523–535, 2000.

 

Publicado no blog internacaoinvoluntaria.wordpress.com e no site da Sobre a Dependência Química Feminina

Evidências Sobre Dependência Química Feminina – Estudo Epidemiológico do GREA Publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria

A paridade de gêneros e o uso de drogas: as meninas estão alcançando os meninos?

MALBERGIER, André; CARDOSO, Luciana Roberta Donola; AMARAL, Ricardo Abrantes do  and  SANTOS, Verena Castellani Vitor.

Rev. Bras. Psiquiatr. [online]. 2012, vol.34, n.1, pp. 16-23. ISSN 1516-4446. 

OBJETIVO: Avaliar as associações entre gênero e uso de álcool, tabaco e outras drogas em adolescentes de 10 a 18 anos dos municípios de Jacareí e Diadema (São Paulo, Brasil).

MÉTODOS: O Drug Use Screening Inventory (DUSI) foi respondido por 971 adolescentes.

RESULTADOS: Na nossa amostra, 55% eram do sexo masculino, 33,8% relataram ter feito uso de bebidas alcoólicas no último mês, 13,5% de cigarro e 6,4% de drogas ilícitas. Não foi encontrada diferença significativa quanto ao uso de álcool, tabaco e drogas ilícitas entre os gêneros em nenhuma das análises (p > 0,05). O uso de álcool, tabaco e drogas ilícitas foi associado a cidade, idade, grau de escolaridade, repetência escolar, e relacionamento com os pais (p < 0,05).

CONCLUSÕES: O consumo entre os adolescentes nesta amostra parece acompanhar recente tendência mundial quanto à equiparação do uso de drogas entre os gêneros. Este resultado deve ser levado em conta pelos profissionais de saúde pública na elaboração de políticas para o problema.

 

ARTIGO NA ÍNTEGRA

Gender parity and drug use: are girls catching up with boys?

 

Corresponding author

 

 


ABSTRACT

OBJECTIVE: To evaluate the association between gender and use of alcohol, tobacco, and other drugs in adolescents aged 10 to 18 years in the municipalities of Jacareí and Diadema, São Paulo, Brazil.
METHODS: A total of 971 adolescents completed the Drug Use Screening Inventory (DUSI).
RESULTS: In our sample, 55% of adolescents were male, 33.8% reported having made use in the previous month of alcohol, 13.5% of cigarettes, and 6.4% of illicit drugs. There was no significant difference between genders in the use of alcohol, tobacco, and illicit drugs in any of the analysis (p > 0.05). The use of alcohol, tobacco, and illicit drugs was associated with the city, age, educational level, school failure, and relationship with parents (p < 0.05).
CONCLUSIONS: Substance abuse among adolescents in our sample seems to follow the recent global trend towards the equalization of drug use between genders. This result should be taken into account by public health professionals in developing policies for this problem.


 

 

Introduction

The consumption of psychoactive substances is a common behavior in many countries and their use is starting at everearlier ages.1 Male adolescents had been linked to higher frequency and quantity of alcohol and other drug use and to more drinking-related problems than female adolescents.2,3 A study of Brazilian elementary and high school students showed that alcohol and illicit drug use during lifetime, in the past year, and in the previous month was more frequent and heavier among males than females.4

Recently, some studies are showing a change in this pattern. A nationwide study in the United States aimed at investigating whether there was a consistent evidence of a birth cohort effect on gender differences in the prevalence of DSM-IV alcohol abuse and dependence found a decreasing gender difference in four types of drinking behavior: lifetime largest drinks, frequent binge drinking, alcohol abuse, and alcohol dependence.5 Also in Brazil, some studies with high school and university students have shown that the consumption of alcohol and tobacco by adolescents and young adults (15 to 26 years) was higher among females. However, males still have heavier consumption of these substances and also consume more illegal drugs than females.6,7

The parity of substance use between the two genders may be occurring due to changes in girls’ social behavior. Factors related to changes in the performance of gender roles, family structures, women’s struggle for space in the job market, stress, excessive activity, anxiety, and difficulty coping with problems may be contributing to increased prevalence of alcohol and other drugs among females.8

Substance consumption patterns, gender roles, and cultural norms may vary along time and among different countries. This fact points towards the need to conduct studies on the consumption of alcohol, drugs, and tobacco among adolescents in different countries and settings. This study intended to investigate the associations of gender and other sociodemographic variables and the use of alcohol, tobacco, and other drugs among adolescents aged 10 to 18 years in two municipalities of Jacareí and Diadema, São Paulo State, Brazil.

 

Method

This study evaluated the use of alcohol, tobacco, and other drugs and its relationship with sociodemographic variables, especially gender, among adolescents who participated in the Family School Program. This program is an initiative of the State Department of Education (SDE) in cooperation with the United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO) and consists of using the physical space of state public schools during weekends with the objective of attracting young people and their families to participate in activities directed towards socioeducational actions.

This research was carried out from 2006 to 2007 in 50 public state schools in the municipalities of Jacareí and Diadema, São Paulo State, Brazil. The project was advertised by posters in the schools containing information about the research and how to participate. To stimulate participation, educators spoke about the study during the scheduled activities in the school, asking the adolescents to divulge the research to their communities.

After the disclosure period, the adolescents who were at school during the weekends participating in the sociocultural activities were approached and invited to participate in the study.

Adolescents gave their names and some residential data to the coordinator who handed them the consent form. Each adolescent took it to his/her parents and/or other responsible adult and handed it back to the research assistant before answering the questionnaire. All subjects and their responsible adults signed a free and informed consent form. Therefore, it was ensured that participation was voluntary and confidential, and that ethical standards for research on human beings were complied with. This study was approved by the Ethics Committee of Hospital das Clínicas, School of Medicine of the Universidade de São Paulo (protocol number: 425/06).

The Portuguese translated and validated version of the Drug Use Screening Inventory (DUSI)9,10,11 was used to assess substance use and related problems. The DUSI is a self-administered questionnaire that evaluates alcohol and other drug consumption in the prior month. For this analysis, only the area “substance use” (Area 1) of DUSI was used. The instrument categorizes the consumption as: no use, 1 or 2 times; 3 to 9 times; 10 to 20 times; and more than 20 times in the last month.

The initial goal was to include 1,000 adolescents, e.g., 20 from each school. However, due to refusals (23) and research deadline, 971 adolescents were assessed. Fifty five percent (529) of the sample were males and the age ranged from 10 to 18 years old. Nine adolescents did not answer the question regarding gender. Unanswered questions were considered missing data. The valid cases for each analysis are shown in Tables 1, 2, 3.

 

 

Statistical analysis

Initially, the sample was described according to sociodemographic characteristics as the city (Jacareí or Diadema), gender, age, schooling level, grade failure, people with whom they lived, having friends who use a substance, and evaluation of relationships with parents or the adults with whom they lived. These variables are shown in absolute (n) and relative (%) frequencies.

The adolescents’ evaluation of the relationships with their parents or adults with whom they live were categorized as “good” or “not good” (average/bad).

The use of alcohol, amphetamines, ecstasy, cocaine, cannabis, hallucinogens, tranquilizers and/or anxiolytics, steroids, inhalants and/or solvents and tobacco was categorized as: no use, 1 or 2 times; 3 to 9 times; 10 to 20 times; and more than 20 times in the last month. Substances other than alcohol and tobacco were grouped as illicit drugs when indicated. Univariate and multiple logistic regression analyses were used to compare the consumption of psychoactive substances between genders. The possible associations between the use of alcohol and other drugs and sociodemographics were also analyzed.

The chi-square test (χ2)/Fisher’s test were used for univariate analysis (Monte Carlo correction was used when at least one variable scored zero). Multiple logistic regression analyses utilized dichotomous substance use (yes or no) as a dependent variable and sociodemographic data as independent variables. The interaction effect showed whether the association between dependent and independent variables was influenced by gender. The odds ratio was calculated with the respective 95% confidence intervals. The significance level was set at 5% in all cases. For the statistical analyses, the Statistical Package for the Social Sciences 15.0 (SPSS Inc., Chicago, Illinois, USA) was used.

 

Results

Sample characteristics

Table 1 presents sociodemographic data of the sample. The students’ mean age was 13.5 years (SD = 1.44). Almost 20% had failed a grade at least once. Forty percent of the adolescents reported having friends who use at least one psychoactive substance.

One-quarter of the male adolescents (24.3%) had failed a grade compared to 13.2% of the females (OR = 2.1). Males were more frequent in the sample of Diadema. There was no difference between genders related to schooling level, age, people with whom they lived, having friends who use any substance, and evaluation of the relationships with the parents or the people who they lived with (p > 0.05).

Substance use in the sample

Table 2 shows the results of multiple logistic regression analyses of the associations between sociodemographic variables and substance use. The variables included in the model were: city, gender, age, the people with whom the adolescent lived, grade failure, relationship with parents, schooling level, and friends who use any substance. Dependent variables were alcohol, tobacco and illicit drug consumption (analyzed separately). The consumption of alcohol, tobacco and illicit drugs was associated with city, age, grade failure (except for alcohol), and a not good relationship with parents. The schooling level was associated only with alcohol consumption. Gender was not associated with any substance use.

As expected, older adolescents (13-15 and 16-18) tended to consume more alcohol, tobacco, and illicit drugs than younger ones.

Adolescents who failed a grade reported more consumption of alcohol (p = 0.020), tobacco (p < 0.001), amphetamines (p = 0.013), cocaine (p = 0.046), cannabis (p < 0.001), inhalants (p = 0.05), and illicit drug as a group (p < 0.001) than adolescents who did not fail. Those who classified their family relationship as not good were more likely to consume alcohol (p < 0.001), tobacco (p < 0.001), amphetamines (p = 0.010), ecstasy (p = 0.05), cocaine (p = 0.015), cannabis (p = 0.049), inhalants (p = 0.07), and illicit drugs (p = 0.001) than those whose relationships were classified as good. The variables “people with whom the adolescents lived” and “having friends who use drugs” were not associated with alcohol, tobacco, and illicit drug consumption (p > 0.05).

Gender and substance use

Among the adolescents, 375 (38.6%) had used a psychoactive substance during the month before the assessment. Alcohol was the most consumed drug (34.8%; n = 332), followed by tobacco (14.0%; n = 133) and cannabis (3.0%; n = 29). The use of illicit drugs, including cannabis, was reported by 6.4% (n = 63) of the adolescents.

The frequency of alcohol and other drug consumption was equal for both genders. The consumption was then categorized as follows: did not consume; consumed 1 to 2 times; consumed 3 to 9 times; consumed 10 to 20 times, and consumed more than 20 times. This categorization was made to evaluate if boys and girls had not only the same frequency but also the same pattern of use. Stratifying by categories, we still did not find any differences between male and female adolescents consumption of alcohol (p = 0.719), tobacco (p = 0.545), and illicit drugs (p = 0.688).

Previous studies found that gender differences could be lower among younger adolescents. To test this statement, we categorized the sample into three groups: children from 10 to 12 years old, adolescents from 13 to 15 years old, and from 16 to 18 years old. Alcohol, tobacco, and illicit drugs use was again not different in boys and girls in the three age intervals (p > 0.05).

Sociodemographic variables and adolescent gender

Table 3 shows multiple logistic regression analyses of substance use and sociodemographic characteristics for each gender. The p value for the interaction effect (p*) is shown in the last column of the table and means that, for a p* < 0.05, the association of sociodemographic variables and substance use is different between genders.

Age and substance use

Male adolescents who were 13 thru 15 and 16 thru 18 years old were more likely to consume alcohol, tobacco and illicit drugs than children from 10 to 12 years old. The same was observed for female adolescents regarding alcohol and illicit drug use. Multiple logistic regression analysis for the interaction effect between genders showed that age is equally a risk factor for using alcohol, tobacco, and illicit drugs among male and female adolescents (p* > 0.05).

Grade failure and substance use

Male adolescents who failed a grade were almost twice more likely to consume alcohol than male adolescents who never failed a grade (OR = 1.925, p = 0.004). This association was not observed among female adolescents. Therefore, gender has an effect on this association (p* = 0.004). Adolescents who reported a grade failure were also more likely to consume tobacco and illicit drugs but these associations were not influenced by gender (p* = 0.976 for tobacco and p* = 0.497 for illicit drugs).

Relationship with parents and substance use

Females who reported having a difficult relationship with their parents were more likely to consume alcohol than female adolescents who reported a good relationship (OR = 5.321, p < 0.001). This association was not observed among males (OR = 1.425, p = 0.215; p* = 0.002). In both genders, a difficult relationship with parents was associated with tobacco use (OR = 2.725, p = 0.004 for males and OR = 3.699, p < 0.001 for females, p* = 0.530). Among female adolescents, the likelihood of using illicit drugs was significantly higher for those who have a difficult relationship versus those who had a good relationship (OR = 4.354, p = 0.002). Male adolescents who reported not having a good relationship with parents were also marginally more likely to use illicit drugs than those who reported having a good relationship (OR = 2.358, p = 0.053). The analysis of interaction did not show an influence of gender in this association (p* = 0.341).

Friends who use any substance

Having friends who use any substance was not associated with alcohol (p = 0.679; p = 0.924, p* = 0.777), tobacco (p = 0.222; p = 0.075, p* = 0.024), and illicit drug (p = 1, p = 1, p* = 0.922) consumption among females and males, respectively.

Drug consumption in Diadema and Jacareí

Failing grade (p = 0.60), with whom the adolescents live (p = 0.753), relationship with parents (p = 0.643), and adolescents´ mean age (p = 0.329) were not different among the 2 cities.

As shown in Tables 1 to 3, male-female rate and consumption of substances were different among the 2 cities. These differences, as shown in multiple logistic regression analyses, did not influence parity of drug use among boys and girls.

 

Discussion

The prevalence of alcohol and cannabis use during the month before the assessment in our sample (33.8% and 2.8%, respectively) was lower than among elementary and high school students from a Brazilian national sample (44.3% and 3.2%, respectively). The opposite was observed for tobacco use (13.5% vs. 9.9%). However, these comparisons must be made carefully due to the different collection time, the convenience sample enrolled here, and the inclusion of students from private schools in the national Brazilian study.4

In Brazil, the consumption of drugs other than alcohol and tobacco has been greater among male than among female students.4,12 More recently, Horta et al.6 found that girls consumed more tobacco than boys in the month preceding the interview, but boys consumed more alcohol and other illicit drugs. Pinsky etal.13 alsoshowed that male adolescents tend to drink larger amounts of alcohol than females in a sample of 661 adolescents in Brazil.

In the present study, there was no difference in alcohol, tobacco, and illicit drug use between the two genders. The pattern of consumption (did not consume; consumed 1 to 2 times; consumed 3 to 9 times; consumed 10 to 20 times, and consumed more than 20 times) was also equal among the two genders. In multiple logistic regression analyses, gender was again not associated with any substance use. All this analysis reinforces the fact that girls, in this sample, are using licit and illicit substances as frequently as boys. This is the first time that these results are observed in Brazil, which is in line with a possible worldwide trend towards equality in the pattern of alcohol and other drug use among adolescents.

Similar patterns were found in a survey in the United States in 2006. The National Survey on Drug Use and Health14 showed that, among youths aged 12 to 17, the rate of current illicit drug use was similar for boys and girls. Male and female adolescents had similar rates of current cannabis use and non medical use of prescription-type psychotropic. Among youths aged 12 to 17, the percentage of males who were current drinkers was similar to the rate for females. The rate of substance dependence or abuse among males was also similar to the rate among females (8.0% vs. 8.1%, respectively).

The rise in girls’ rates of substance consumption may lead to the rethinking of drug prevention programs. Issues related to girl’s consumption may be different from boys’ and must be included in the programs. Sexual initiation, risky sexual behavior, making plans to commit suicide and actual suicide attempts have been associated with substance use experimentation and smoking only for girls.15-17 Having norm-breaking friends seems to predict both alcohol and cannabis use among girls. Among boys, having norm-breaking friends was only predictive of alcohol use and only among the young boys.18

Other cultural and emotional issues are different among boys and girls and may be also reached by the prevention programs. Cultural norms and gender roles are changing for girls and women. Though some girls gained opportunities and freedoms, others became more vulnerable to stressful economic circumstances brought about by changes in community social organization and family structure. Females tend to internalize stress, hurting themselves through problematic substance use.19

Besides gender, some studies show that psychoactive substance consumption among adolescents has been also associated with specific patterns of use, age, family relationship, other risky behaviors (unsafe sex and delinquency), schooling level, and failing grades.20-23

In the present study, the consumption of alcohol, tobacco and other drugs was associated with city, age, schooling level, failing grades, and their evaluation of the relationship with parents in both genders. Older adolescents, adolescents who failed a grade and those who evaluated their family relationship as not good were more likely to consume alcohol, tobacco, and illicit drugs.

However, these associations varied among genders. For girls, a not good relationship with parents was associated with consumption of alcohol, tobacco and illicit drugs. For boys, this association was seen only for tobacco (marginally for illicit drugs).

The quality of the relationship with parents has been associated with psychoactive substance use among adolescents in other studies. The adolescents who evaluated their relationships with their family as bad or very bad tended to consume more alcohol and tobacco than those who have a positive opinion (good and/or very good).24,25 Similarly to our study, an American survey with 2,733 adolescents showed that family problems were associated with cigarette use for girls but not for boys. Although the problems predicted both boys’ and girls’ alcohol use, the association was stronger for girls.26 Therefore, family issues seem to have a stronger association with females’ use of drug in our study and in the American one cited above.

On the other hand, failing a grade showed a stronger association with boy’s substance use. In the present study, failing a grade was associated with consumption of alcohol, tobacco, and illicit drugs among boys. Among females, it was associated with tobacco and illicit drugs. The interaction analysis showed that the association was stronger for boys.

Failing a grade is a common variable associated with drug use. However, most of the studies do not analyze it separately for gender as the present study did. Souza et al. 27 and Bahls et al.28 observed that students who had already failed a grade tended to consume more alcohol and other drugs than those who did not.

 

Conclusions

In conclusion, considering drug use as a male behavior seems to be improper in a context of increasing female consumption. However, drug consumption among females may have some specific characteristics. Substance use seems to have a stronger association with family problems among girls and a stronger association with defiant behavior or school problems (failing a grade) among boys. These results, if replicated in national studies, should generate new perspectives in preventive programs in Brazil.

Study limitations

The DUSI only evaluates the substance use in the 30 days prior to the assessment. However, evaluating the behavior of the last month decreases memory bias and allows assessment of current substance use.

Sampling (convenience sample: only 50 schools in 2 municipalities in São Paulo State were assessed) and self-selection (adolescents had the control over whether to participate) biases can not be ruled out. This fact may impair generalization of these results to all the Brazilian adolescent population. However, the consistency of the findings (similar rates of substance use for boys and girls were found in all different analysis in this study) and the large sample are strengths of this study. Our results, the first in our country that showed a similar pattern of drug use for male and female adolescents, should stimulate other national population-based studies.

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