Artes Marciais e Caráter

(publicado no portal kiai.med.br em out/2005)

Encontramos em todas as artes marciais tradicionais códigos de conduta, que no caso do Karate chamam-se “dojokun”, geralmente estão afixados em local de ampla visibilidade no dojo, e em muitas academias são repetidos por todos os estudantes no início e ao final do treino. Neste texto mostramos diversos códigos e preceitos clássicos do Karate-Do, com ênfase no nosso estilo Goju-ryu, e na sequência apresentamos e discutimos um interessante artigo publicado em 1984 na revista Human Relations – um estudo que avaliou o impacto do treinamento com artes marciais (TaeKwonDo) em jovens entre 13 e 17 anos considerados delinquentes juvenis.

(Referência: Trulson ME. Martial arts training: A novel “cure” for juvenile delinquency. Human Relations Vol39 No12 1131-1140 1986)

Existe uma crença compartilhada por instrutores e mestres das diversas artes marciais (e pela população em geral) que motiva muitos pais a levarem seus filhos para os dojos. Arte marcial traz confiança para as crianças que costumam “apanhar na escola”, ao mesmo tempo que traz controle para aquelas que costumam “bater nos outros”. Um ambiente protegido em que o respeito é colocado acima de tudo, em que sempre existe alguém mais forte que você, em que existe sempre um instrutor pronto a intervir quando necessário, fazendo cumprir as regras, advertindo quando a punição é necessária e reforçando as atitudes positivas – esses seriam alguns dos fatores que levariam à melhora do comportamento de crianças e adolescentes que tantos pais buscam. Nossa experiência pessoal ensinando Karate confirma essa idéia – a persistência no treinamento leva a uma mudança de atitude naturalmente. A grande dificuldade inclusive é mantê-los no Caminho, já que muitas vezes tentam abandonar precocemente as aulas – seja porque vieram contra suas vontades, seja porque não toleram um ambiente regrado.

Um estudo muito interessante conduzido por Michael E. Trulson, da Faculdade de Medicina da Universidade A & M do Texas, e publicado na revista Human Relations incluiu 34 adolescentes entre 13 e 17 anos que preenchiam critérios para delinquência juvenil na escala MMPI (Minnesota Multiphasic Personality Inventory).

Os jovens foram separados em três grupos: um deles recebendo treinamento em Taekwondo Tradicional (meditação, alongamento, aquecimento, discurso sobre a filosofia da arte marcial, formas, lutas, defesa pessoal e meditação novamente), outro em Taekwondo Esportivo (alongamento, aquecimento, lutas, defesa pessoal) e um terceiro grupo foi usado como controle – tinham os mesmos três encontros semanais, com o mesmo instrutor, mas realizavam somente alguma atividade física não relacionada à arte marcial. TODOS os jovens incluídos permaneceram no estudo durante os seis meses previstos – foram informados que seriam denunciados pelos seus atos de delinqüência caso abandonassem o treinamento antes deste prazo!

Todos os adolescentes foram avaliados pela NMPI – e pontuavam o suficiente para serem considerados delinqüentes juvenis. Além disso, foram submetidos a dois testes que mediam agressividade (Navaco 1975, Nosanchuck 1981) e responderam o JPI (Jackson Personality Inventory). De acordo com a idade e a pontuação nas escalas e testes aplicados, foram randomizados para os três grupos – 15 jovens receberam treinamento tradicional, 11 receberam treinamento esportivo enquanto 9 formaram o grupo controle.

Todas as testagens foram repetidas após seis meses, encontrando mudanças bastante positivas no grupo I, negativas no grupo II e ausência de mudanças significativas no grupo III. Os adolescentes do grupo TaeKwonDo Tradicional ao final de seis meses deixaram de ser considerados delinqüentes (MMPI), apresentaram níveis de agressividade abaixo da média e ainda mostraram surgimento (ou fortalecimento) de características positivas de personalidade (JPI). O grupo que recebeu o treinamento Esportivo por outro lado mostrou, em comparação com o início do estudo, tendência ainda maior para a delinqüência, aumento dos níveis de agressividade e no geral o oposto do observado com o grupo I com relação à personalidade (JPI). O grupo controle por sua vez não apresentou mudanças estatisticamente significativas em nenhuma das comparações.

Pode-se afirmar, a partir dos dados publicados, que não basta ocupar o tempo dos jovens, nem mesmo oferecer uma figura de autoridade ou uma atividade física. O desenho do estudo permitiu afastar essas possibilidades, já que todos os grupos tiveram o mesmo uso de tempo para suas atividades específicas, todos os jovens tiveram contato com o mesmo instrutor (que não mudou seu “jeito de ser” para cada grupo!), e todos os grupos incluíram atividades físicas variadas.

Ao contrário da arte marcial esportiva, onde o objetivo é a vitória, a arte marcial tradicional valoriza o respeito, o crescimento e o treinamento diligente – muito mais importante é vencer seus próprios “demônios” que o resultado de um combate. Além disso, cada treino começava e terminava com uma breve sessão de meditação – que sabemos ser importante método de ampliação da autoconsciência, além de reduzir níveis de ansiedade e impulsividade.

Compartilhamos da preocupação do autor acerca da proliferação de escolas de artes marciais modernas – se é que esportes de competição podem ser classificados como artes marciais – que parecem possuir o potencial de piorar a conduta, a agressividade e mesmo despertar traços negativos da personalidade de crianças e adolescentes, especialmente aqueles com uma tendência à delinqüência.